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Letras de Belchior no álbum 'Alucinação' refletem o Brasil de 1976 em filme que apresenta recorte do país há 50 anos

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Letras de Belchior no álbum 'Alucinação' refletem o Brasil de 1976 em filme que apresenta recorte do país há 50 anos
Letras de Belchior no álbum 'Alucinação' refletem o Brasil de 1976 em filme que apresenta recorte do país há 50 anos (Foto: Reprodução)

Belchior (1946 – 2017) é tema de documentário inspirado pelo repertório autoral do álbum 'Alucinação', lançado pelo artista em 1976 Divulgação / Festival do Rio 2026 ♫ CRÍTICA DE DOCUMENTÁRIO MUSICAL Título: “Alucinação” Direção: Leo Caetano, Marcos Caetano e Renato Terra Roteiro: Renato Terra Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Logo no começo do documentário “Alucinação”, em cartaz no Festival do Rio 2026 até hoje, terça-feira, 6 de outubro, Belchior afirma que palavras são como navalhas. No filme dirigido por Leo Caetano, Marcos Caetano e Renato Terra, o verbo incisivo do artista nas 10 músicas autorais do repertório do álbum “Alucinação” – obra-prima da discografia do cantor, compositor e músico cearense, lançada em 1976, há 50 anos – é usado para moldar e apresentar um recorte do Brasil em 1976. Roteirizado por Renato Terra, o filme “Alucinação” está longe de ser um documentário sobre a criação e gravação desse disco emblemático em que Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) refletiu sobre o Brasil – e o então já desfeito sonho hippie – sempre sob a ótica angustiada e desiludida do migrante nordestino que saiu da terra natal em busca de um lugar ao sol em cidades grandes como Rio de Janeiro (RJ) e sobretudo São Paulo (SP). A intenção dos diretores foi outra e bem diferente. O roteiro do filme “Alucinação” reproduz as 10 músicas do álbum homônimo, na ordem do LP editado pela gravadora Philips, enquanto expõe na tela imagens que traduzem e por vezes até ampliam o sentido das letras. É como se o trio de diretores tivesse produzido e encadeado espécies de clipes das dez canções, exibidos em 2026 com imagens do Brasil repressor de 1976, vistas em sequência na boa edição feita pela montadora Jordana Berg. Entre os clipes, as reproduções de trechos de entrevista de Belchior expõem a ideologia do artista que, assim como a maioria o povo nordestino nascido nos anos 1940 e 1950, ouviu de Jackson do Pandeiro (1919 – 1982) a Ray Charles (1930 – 2004) nos serviços de alto-falante das cidades do interior do Brasil. O roteiro jamais perde o fio social da meada. Se a canção “Apenas um rapaz latino americano” ilustra cenas que mostram trabalhadores de obras e meninos vendendo laranja nos sinais, o rock “Velha roupa colorida” toca enquanto o espectador vê imagens dos grupos Secos & Molhados e Doces Bárbaros, entre outros artistas em evidos anos 1970, além de cenas do filme “Quando o Carnaval chegar” (1972). Música em que Belchior expôs com desencanto a continuidade do conservadorismo que se reproduz de geração em geração, “apesar de termos feito tudo o que fizemos”, a canção “Como nossos pais” é ouvida no filme como a trilha de imagens do cotidiano automatizado das famílias brasileiras. Com o verso “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” sampleado e revitalizado pelo rapper Emicida no álbum “AmarElo” (2019), a canção “Sujeito de sorte” é amplificada no roteiro do filme “Alucinação” pelo depoimento de um jovem que relata a dificuldade de ser negro no Brasil de 1976. É quando o filme reproduz reportagem hoje risível sobre ídolos que estão envelhecendo. “Todos eles com mais de 30 anos”, diz o locutor, quase em tom de espanto. “A minha alucinação é suportar o dia-a-dia”, sentenciou Belchior em verso da música-título “Alucinação”. No filme, essa faixa representa as mulheres de 1976, infelizes e sem controle da própria vida, presas na rotina de casamentos enquadrados no modelo patriarcal. Por ser música lançada por Belchior em 1976 e regravada pelo cantor no álbum “Alucinação”, “A palo seco” é ouvida no filme sem associação com imagens do Brasil, no registro feito por Belchior para a entrevista entranhada no roteiro do documentário. Já “Fotografia 3x4” dispara mais flashes de migrantes nordestinos na selva das cidades grandes, já que o tema permeia o álbum de 1976. É a volta ao começo que amarra bem o roteiro. Quando rolam os créditos finais, ao som da canção “Antes do fim”, o documentário já deixou no espectador a certeza de que as palavras de Belchior no álbum “Alucinação” eram mesmo navalhas que (re)cortavam o Brasil de 1976, expondo as vísceras de uma sociedade que ainda sangra pelas injustiças do dia-a-dia. Cartaz do documentário 'Alucinação', de Leo Caetano, Marcos Caetano e Renato Terra Divulgação / Festival do Rio